terça-feira, 29 de novembro de 2016

loucura

meus quadris
paralisados pelo
ritmo do homem

revelavam

a censura
dos prazeres
cíclicos

as bordas
do meu corpo
orbitando
um ponto
imóvel
obstruído
pelo poder
cartesiano
linear
e fálico

revelavam

que eu não
podia
obedecer
minha própria
intimidade

que eu
só servia
pra servir

e quando
o corpo revoltado
decidiu que
o ritmo interno
seria mestre e
guia

foi a minha
sanidade
que ele decidiu
que controlaria

para seu azar
eu aprendi
a rebolar
longe de seu
alcance

quarta-feira, 8 de junho de 2016

miga #MulherArtistaResista

Para Taynara Bruni

não faz
muito tempo
que te conheço
mas

parece
que sua
gargalhada
tem cem anos
e é capaz
de acordar a noite
acendendo estrelas
no meu peito

parece que
a tua dor
tem mil anos
é mais velha
que seu sorriso
como queria poder
fazer algo
sobre isso
além de
estar aqui
mas não posso:
estar aqui é o jeito

parece que a
tua raiva é nova
eu só quero
que ela cresça
porque raiva cura
quero que você
fique segura
floresça
que não se puna
que soque
grite
chute
as pessoas certas
não a si mesma
faça e aconteça
me usa de saco
de pancadas
juro que não
dá nada
só risada

quero minha boca
estalando beijos
nessa bochecha
macia
e teus ouvidos
sendo atingidos
pela palavra miga
miga miga
me escuta
siga sua sina
de mulher
fotógrafa
desenhista
& resista:
você é artista

adianta balançar
a cabeça não
não fiz uma pergunta
foi afirmação

quero que
você olhe
no espelho
e diante do
reflexo
mais veja
do que reflita
veja veja
como essa
mulher é
bonita

quero um dia
te ouvir dizendo
que suas memórias
latejam
mas só às vezes
não que doem
sempre
depois que
agora você
é feliz
que só ficou
a cicatriz

"tô suave"
voe, amiga
livre viva
você é ave

enquanto o dia
não chegar
- não tenha pressa
porque a pressa
em mandar memórias
embora
faze a dor teimosa
querer ficar -
eu vou afirmar
numa ou noutra
melodia:
taynara
não para
de ser
essa poesia

acho que escrevi
o que queria
pra te arrancar
um sorriso
que mais que eu faço?

já sei
vem aqui
e me dá
um abraço

segunda-feira, 6 de junho de 2016

vaza #MulherArtistaResista

mergulho
em água
rasa

voar sem
ter asa

eu fogareu
você brasa

será #MulherArtistaResista

será que você
gostou do modo
com que minha língua
tocou a sua
será que você gostou
do meu gosto
será que achou
minhas piadas
de mau gosto
será que amanhã
vai esquecer do
meu rosto
será que eu fui
só mais uma
nua que conheceu
sua rua
seu travesseiro
que tomou banho
no seu banheiro
ou será que fui aquela
que não passa
permanece
como pulga na orelha
bem pentelha
quem sabe você cresce 
será que eu deveria
ter sido rude
quando você
me pediu nudes
quem sou eu
pra você
e quem são elas
será que é raso assim
o seu mundo
ou será só medo
de ir tão fundo
será que quando você
olhou nos meus olhos
você viu a minha dor
será que você acha
que eu me faço
de vítima
pra fingir
sofrer por amor
será que
por ser delicada
você achou
que não tenho pegada
será que por
não gostar de violência
meu jeito de transar
te deixou
entendiada
será que você
vai ler esse poema
será que será
sempre assim
o lema
não ter em mãos
o leme
navegar no desconhecido
com medo de naufragar
será que vai ser sempre
esse treme treme
será que sou muito
devagar
será que te incomoda
meu divagar
será que eu tô viajando
será que a deusa
tá no comando
como é que se manda
a cabeça parar
de pensar
me diga como não
ficar sem ar
será que vale
a pena
sonhar
em nunca mais
se machucar
será que vai me entender
vai tentar se justificar
ou quando eu quebrar
o silêncio
vai me repudiar
onde será
que nós vamos parar

domingo, 29 de maio de 2016

vênus em aquário

quero o meu corpo
despido do desejo
sem medo da força

quero o meu corpo
e todas suas memórias
tocadas com suavidade

isto não é romantismo, tonta
tolice sua me achar romântica
por ousar querer o que mereço

carinho
cumplicidade
cuidado

menos do que isso
não é vínculo
é adereço

nunca entendi
o barato
dessa droga: status
a imagem sequestra
sentidos

fatos consumados
atos de consumo
bucetas commodities*
tudo errado

neoliberalismo
domando afetos
não tem jeito
insubmissa rejeito

relações: delas
não procuro definições
como "para sempre"
festa de casamento
cafonices heterossexuais

procuro, antes, a matéria
das vozes que se alternam
atingindo os tímpanos
percorrendo nossos cérebros
produzindo sentido
sustentado por

palavras
mãos
bocas
nucas
coxas
seios
vulvas
lábios
línguas
cheiros
gostos

analiso o discurso
dos nossos movimentos
mesmo que a boca esteja
calada

o ruidoso silêncio
quebrado
a rede que se forma
ligando um silêncio
no outro

nós
da
realidade

não desconfiar

procuro a matéria da delícia
de gozar e fazer gozar

procuro a matéria
de uma vida autoral
fora das leis dos homens

e não aceito nada
pela metade

meia é de colocar
no pé

ou vem inteira
ou marcha-ré

*commodities é um jargão do marketing e significa mercadorias

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

inexistencialismo

vida é morte o tempo todo
me lembrando que eu tenho um fim

mas eu não comecei ainda
"eu" ainda não existe
não é tão confuso assim:

o gênero me enfraqueceu
a cor me emburreceu
"eu" ainda não nasceu

é da morte que "eu" vem
da morte de quem eu fui
sem nunca ter de fato sido
quero o que eu poderia ser
se não fosse proibido
mulher ser indivíduo
[quem nunca "se divide"
é o sexo masculino]

mulher:
se não for pedir demais
me empreste um pouco
seu ouvido?

eu tenho há tanto
parada na garganta
esta pergunta:

não há meio
de ser sempre inteira?

camada por camada
apago as identidades
que de tão coladas à cara
aos trejeitos aos costumes
pareciam ser tão minhas
mas são de todas nós
cinismo, omissão, falsos sorrisos

até que só a matéria reste
potente viva pulsante
pronta para

ser

finalmente

eu, aquela que quis se matar
mas escolheu permanecer viva
porque o suicídio das mulheres
não é autoral

é o assassinato
sorrateiro
da autora

provocado pelos sujeitos
da legislação
do mundo

me recuso
a assassinar
a história
do meu corpo

e é assim
que começo
a ser

eu

.
.
.

[Poema inspirado na Teoria Inexistencialista da escritora Keli Cristina. Para ter acesso a essa teoria, acesse este link: https://amargemdofeminismo.wordpress.com/2015/10/19/inexistencialismo-leia-suave-com-todas-as-pausas-necessarias/]

#ahistoriadela
#herstorytelling

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

nem amor nem medo

minha vida não vai acabar
amanhã
se ela não corresponder

não me deixo levar
pelo ímpeto da conquista

[embora o ímpeto exista]

ela não é
terra à vista

nem minha vida
uma cruzada

nada disso
de tudo
ou nada

talvez eu não seja
digna
de seu interesse

talvez eu seja:
ela só
não me conhece

e apesar de curiosa
para saber
se ela
gosta ou não gosta
não quero apressar
a resposta

pode ser que
o interesse seja
meio que uma
lagarta

que demora
a chegar
ao destino

[farta do chão]

pode ser que
nossa potência
seja borboleta

[pode ser que não]

e se for
prefiro apenas
pacientemente
esperar
pela metamorfose

jamais me
conformaria
caso a minha
ansiedade
machucasse o casulo
onde nossas
supostas asas
amadurecem

comprometendo
o possível
voo

e se não for
ter tecido
este poema

já valeu
a pena

pois ele não nasceu
de expectativas
ou projeções futuras
mas da celebração
deste instante
repleto de si próprio

que oferece
agora sem medo
de altura
a mão para o salto
dos instantes
seguintes

a oferta
é mais importante
do que a sua aceitação

e a recusa
um risco
que não ouso
temer