sexta-feira, 16 de abril de 2010

um caso de amor e de ódio

palavra I – amor

a palavra é o grito que representa uma coisa que é muda e que jamais pode ou poderá ser representada, a coisa: esse é o maior sofrimento do poeta: dar som àquilo que nunca deixará de ser silêncio. poeta é o que trabalha com a matéria do impossível. poeta é aquele que veste o que nunca deixará de estar nu. o poeta é a própria nudez em forma de carne. sua palavra é suor e soa alto. palavra é o tronco que ecoa oco, mas que esconde e mostra seu cerne.

todas as palavras já foram ditas.


palavra II – a ódio

todas as palavras - essas malditas – já foram inventadas e já estão ditas. quando nasci, não sabia falar. quando soube, não pude escolher a palavra chichume para designar uma coisa que é uma panela. não pude escolher a palavra crelho para designar uma coisa que é casa. não pude escolher a palavra zomburo para designar aquilo que conhecemos como loucura!

e tem gente que ainda acredita em liberdade. tolos.

faz meu gênero



a dor é crônica
por isso conto:
prefiro poema

autoria

minha assinatura
foi assassinada
silenciosamente
mas jaz em todos
os versos
                                 dispersos
em paz



quinta-feira, 15 de abril de 2010

Diálogo

- Conhece a Liberdade?
-Ah, sim, a filha da Ousadia com o Descaso?
- Não, a filha do Respeito e da Coragem. Essa daí que você falou até parece fisicamente com a Liberdade, mas o nome dela é Libertinagem. 

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O grito de Sophia

Liberdade é uma palavra redonda, cheia, que quase explode na boca quando pronunciada em looping: li-ber-da-de-li-ber-da-de-li-ber-da-de-li-ber-da-de. É um grito alto que alivia quando não está mais preso na garganta. A liberdade sobe das vísceras com uma força descomunal, atropelando coração, atropelando o fôlego. Eu não preciso de pão. Alimento para o meu corpo é liberdade. Em looping, assim: ...-li-ber-da-de-...!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O poema

Nenhum poema
Merece respeito
Todos são trouxas
Feito nas coxas
Todos são leigos
 
Nenhum poema
Nasce direito
-Cortam a alma
Rasgam a calma
Mostram defeitos
 
Nenhum poema
Fala baixo
Grita pouco
Revela o intento
 
Mas quando o poema
Endoidece a face
Desfaz o disfarce
Insulta o certo
Alça vôo e se lança
 
Tudo de oculto
em mim
Se alcança

perfeição

o poema perfeito
acontece
não é feito