sexta-feira, 9 de abril de 2010

pegadas

me faça
perder
as estribeiras
me amassa
me encaixa
me deixa
sem eira
nem beira

me come
pelas beiradas
ou então some
sem deixar
pegadas

circus

meu nome
um endereço
na tua agenda
de homem

na minha
um embaraço
qualquer
um “quem sabe?”
de mulher

aparece fazendo
estardalhaço

some
me levando
um pedaço

tanto faz
cansei do meu nariz
de palhaço

linguagem

sinta-se à vontade
entre meu sexo
e minha sintaxe

contemplação


religião
contemplo
sem templo
nem instituição

quarta-feira, 7 de abril de 2010

descobertas


perplexa
até debaixo
das cobertas
você me
descobre
                 complexa

inventador


invento uma dor
para desbaratinar
a minha
crio e creio
assim nunca
estou sozinha

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Escrituras sangradas

Quando olhares para o céu, abóbada azul, lembra-te: és nuvem que passa e logo em breve tu te dissiparás. E ao apertares os olhos sentido a dor feminina de rasgar o ventre em vermelho, lembra-te que é dele que são feitas tuas estranhas entranhas de mulher. E se por acaso teu útero contrair, não permitas tu que teu grito mudo delate tua íntima dor. Já aprendeste o caminho do silêncio, segue por ele. Segue sangrando por este caminho solitário e seco. Teu coração ainda bate quente no silêncio seco e espesso do deserto. Para onde vais? Para onde fores. Para quem gritarás? Socorro, para a voz que mora na tua própria cabeça. E quem responderá? Necessário que saibas: ninguém. Tuas pernas são tuas últimas companhias e teus olhos, a única esperança. Para além do que tu não podes ver, existe o que tu ainda não enxergas. Anda. Atravessa o deserto que há em ti, o deserto de mar morto que sangra aí dentro. Atravessa com sede, fome e medo, nem ao menos a ilusão do oásis à tua frente. Anda, atravessa teu deserto íntimo e universal de mulher. Tu mesma te esperas do outro lado do deserto. Altiva e outra.