quinta-feira, 11 de novembro de 2010

[Amor = x] | 1 | Carta nº1 a X

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente.” - C.L.

X,

O amor é mais amor quando já deixou de ser amor para ser um mito. Ama-se como se acredita em deus. E não é preciso pensar em deus para acreditar nele. Então descubro que te amo mais quando não te amo. Quando tudo na minha vida passa e você não está presente, mas é onipresente, como deus. Mesmo que eu não saiba que a sua presença preenche meu coração inteiro. Volto a pensar em você e o amor vira uma prece. Deus não tem um corpo que eu possa atingir, assim como eu não posso beijar sua boca quando sinto vontade. E ainda assim posso sentir que você nunca vai me abandonar. Eu não preciso da sua mão para sentir que estamos de mãos dadas. Independente de deus a minha fé existe. Independente de sua presença, você está aqui. O amor é da mesma natureza que a fé. É por isso que é tão vulnerável. Humana que sou, creio, não creio, torno a crer. Amo, desamo, volto a amar. Mas quando descreio, o que desconheço em mim ainda crê, mesmo que eu não saiba. E mesmo que eu desame, o que desconheço em mim ainda ama, mesmo que eu não saiba. E quando eu digo que deus não existe é quando eu mais penso em deus. É a partir de deus que nego sua existência. E quando acho que não te amo eu te amo mesmo assim. Porque é a partir do meu amor que eu digo que não te amo. Nada melhor do que a negação para afirmar. A negação é uma presença vestida de ausência. Mas até mesmo quando não penso se te amo ou se não te amo, continuo te amando. Então também a ausência é amor. É no vazio oco do mundo que as coisas de repente nascem. O zero é sempre um ponto de partida. Um neutro ponto de partida. Deus é zero, assim como eu te amo é zero.
Escrevo como quem oferece o que tem de mais precioso. Fazendo de minhas palavras um terço sagrado que pudesse estar à sua mão caso você sentisse que precisa do visível para crer no invisível. Mas não me ofendo se por acaso você recusar minha oferenda, pois estou escrevendo como quem reza: agradecida por compreender que amar é uma dádiva que só eu posso dar a mim.
 


                                                                                                                                           

5 comentários:

  1. amor submisso, divino.. é poético e ilusório (talvez, por isso, seja ainda mais poético!)

    ResponderEliminar
  2. Que-coisa-mais-linda!

    "Saudade é o amor que fica", a ausência é só a palpável...!

    Amei! Virou um dos favoritos.

    ResponderEliminar

Que tal continuar o poema nos comentários? Co-criemos.